quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Guerra e Paz

A lamina imunda - mas bem cuidada - deixa cair uma gota de suor e sujeira (ou seria sangue?)
Para ele não fazia diferença. Após anos no campo de batalha, não se lembraria nem mesmo de uma boa noite de sono. Uma em que você não precisasse dormir com um olho aberto e outro fechado. Poderia deixar suas armas longe e remover as enormes botas pra dormir. A roupa, não precisaria ser dura e escamosa. Poderia usar uma flanela fina e macia, ou então nada. Pensamento irrequietos tentavam florescer, mas o braço treinado - e cansado -  sabe a direção onde se mover; Defende um golpe certeiro e rebate com outro ainda mais letal. Viu os olhos do guerreiro que abateu; Piedade. Morte. Justiça. Já não reconheceria mais os rostos de sua família se os vissem, mas se lembraria desse rosto pra sempre. Não tinha certeza do porque estava ali. mas golpeava firmemente tudo com uma cor diferente da sua que se movesse.
O cheiro era insuportável. Faziam mais de meses de combates incessantes. Ouviu passos fortes e se virou. Era uma garota. Seus olhos tinham o fogo do inferno e seus movimentos estavam todos muito pesados. Talvez fosse o cansaço. Talvez fosse a fome. O tintilar das espadas ecoaram pelo campo. Ali, os dois pareciam estar em um julgamento divino: "Senhoras e Senhores! Que tudo se decida agora!". Nenhuma palma ou grito de gratidão. Apenas machucados e lindas escoriações permanentes.
As pernas da garota fraquejam e ela toma um golpe certeiro no peito. Por um instante, o jovem guerreiro sente pena dela. Devia estar ali por ordem de alguém. Ou até mesmo, faria parte dos "rebeldes livres", que só queriam que a guerra acabasse. Estranho, que para isso, eles estavam também em guerra, e a há tanto tempo, que assim como o jovem guerreiro, não faziam a minima ideia do "porquê". Perdido em devaneios ele olha pra garota. Seus corpos tão juntos que se não fosse o cenário, alguns diriam que eram amantes. Ela sorri e olha para o peito dele. Ele acompanha e vê uma faca de caça talhada até o cabo no seu peito. Ele havia baixado a guarda. Eles riem, e o riso, parecia parar a guerra - por uma fração de segundos - e o mundo voltava ao normal. Mesmo que por instante e sem se conhecer, eles se amaram e entenderam o motivo disso tudo. 
Enquanto a Morte chegava exausta para a sua patrulha diária(vejam que até a senhora Morte está em guerra), parou para admirar o casal de estranhos. Mortos um pelo outro, e ainda assim, morreram de mãos dadas. Uma lágrima fina escorreu da face esquelética ao ver um pesaroso sorriso em ambos. Se fosse em outra ocasião, ela deixaria essa passar, mas simplesmente não pode evitar a cena...


Enquanto isso há milhas de distancia, uma bela e longa mesa está farta e todos nela riem escandalosamente. Vassalos(ou deveria dizer escravos?) enchem os copos de seus senhores com um vinho mais caro que toda a comida de um ano que o guerreiro comeu com seus companheiros antes de partir. Os senhores falam sobre coisas fúteis e reclamam sobre a "impureza" do ar que respiram. lembram vagamente que o mundo está em guerra e não se preocupam com os milhões mortos(por eles) a cada dia. Eles se olham e riem. Eles riem, mas não sabem de quê ou porquê...

"Talvez" - Disse a Morte - "Talvez eu estivesse realmente no lugar errado, só pra não quebrar o clichê"... Enxugou a lágrima e continuou seu trajeto.



Antes de estar, isto é o fim. Ou não...




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