sexta-feira, 13 de junho de 2014

Milonga

Era noite em sua cabeça, mas lá fora o sol rasgava a pele de quem ousasse sair. Os pequenos barulhos do dia o irritavam tanto que logo seria difícil ignorar. Ele via tudo com outros olhos, não importava o quão doloroso era na verdade. Contava os "tic-tacs" do relógio imenso que tinha em seu quarto. Tentava descobrir que horas eram, sem mesmo abrir os olhos. Aquilo o acalmava e, pouco a pouco, ele se encontrou onde queria estar...

"As nuvens carregadas pairavam sobre o céu, mas nenhuma gota de chuva descia. Ainda haviam alguns pássaros, enfileirados nas arvores colossais que descansavam naquele imenso vale. Lá longe, ele podia ver montanhas cercando o mundo todo. Refletiu na quantidade de vidas que existiam ali. Pensou que não poderia jamais enumerar as riquezas que a Terra tinha.
Sozinho -  como o mundo queria -  ele andava por um caminho estreito, cheio de pequenas flores no chão. Vez ou outra um vulto o olhava por entre as arvores. Por de certo um animal que ali vivia. Ele sempre demonstrou respeito pelo que não podia ver.
A caminhada foi longa, mas ele não estava cansado ou entediado. Finalmente chegou a uma casinha, linda e simples. Exitou por alguns instantes, mas abriu a cerca que levava até a unica porta que a casa tinha. Tirou a poeira das luvas que usava e levemente bateu três vezes na porta. Uma criança abriu e sem fazer contato visual, pediu que entrasse. O viajante temporal entrou e se sentou numa cadeira de balanço que o menino havia apontado. Ele observou o menino por um tempo. O rosto dele não tinha olhos ou boca, e pareciam sempre estar na mesma posição. Será que era tudo se desfazendo?
Olhou pela entrada da porta, que ainda estava aberta. As arvores, as nuvens, tudo parecia estar desmanchando. Ele tentou levantar, mas seu corpo pesou pela primeira vez ali. A voz não saiu de sua boca e ele sentia o chão tremer enquanto um branco imenso ia tomando conta de tudo..."

Novamente os barulhos do dia o interromperam. Conseguiu ir mais longe dessa vez, mas ao entrar na casa, a estabilidade, a conexão, se perdia. Pensou naquele menino sem face. A sensação que aquele garoto transmitia era tão "pessoal" pra ele. Disse à si mesmo que não era mais hora pra isso.
Abriu os olhos devagar e se viu no seu quarto. O corpo não o respondia prontamente, mas as diferenças daquele lugar lindo para ali eram imensas.
Resolveu esquecer aquilo por mais um tempo. Abriu as portas e saiu, para que o sol também rasgasse a sua pele...

sábado, 7 de junho de 2014

Diminuto

E de tanto estar aqui, não sei onde é.
Lindas e pequeninas paredes de concreto;
Saia da minha cabeça! Pois é.
Não posso adivinhar porque saiu do caminho reto.

Não mudou nada desde que se foram os ventos.
Renuncia o bom, pede emprestado o incerto;
Faz da birra, da vida, do selo, do amor; Relentos.
Busca pois o vazio do céu aberto.

Passou da lucidez escondida na canto.
Releu o capitulo em fotos guardadas;
Soltou seu mais feliz e triste pranto.
Disse à si mesmo: "Asas quebradas"

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Kill Lua

Ele se perdeu. Não sabe mais achar a música.
Fecha os olhos e abre a alma, mas não sente o toque harmônico.
Nem na sua cabeça, consegue mais formular os zumbidos que antes viravam canções.
Chato. Massante. Irritante.
Abre um livro. Busca amor.
Lá fora - perto dos homens - há de haver algo que o encante.
Ele não quer ser encantado.
Quer de volta o infinito. Anseia por fogo, daqueles que a água não apaga.
O brilho da noite enche seu rosto de solidão.
Se pergunta se lá - na Lua -  poderia estar a resposta.
Ele sorri sem querer.
Uma solitária lagrima desce pelo rosto.
Enquanto fecha o mundo ao seu redor, risca na mente desenhos mudos.
Ele vai matar a Lua.




segunda-feira, 2 de junho de 2014

Fantasmas

Não é a dor que consome a luz;
O fato é que não há motivos - ou razão - para sair da penumbra.
A vida se torna a cada dia mais chata, e eventualmente, cinzas serão sopradas.
Os olhos estão pesados e da cor que um dia foi admirado por ti...
As palavras são profundas, caras e dadas em abundancia ou escassez.
Talvez um livro seja aberto. Talvez, o final feliz te seduza;
Apagar as sórditas ideias que vem tão rápido, e ficam tanto tempo.
Não poderia deixar de resgatar algo do mar;
Não viveria(mesmo que sem gosto) por uma simples pedra;
Ela teria que ser mais. Eu haveria de conhecer o teu gosto e valor.
Somar tudo e perceber que não te darão o tempo que deseja - nem que precisa;
Levantar de novo, deitar de novo - dislexia.
Uma palavra se tornar uma frase. Uma frase se tornar um texto.
Um texto se tornar um livro, e depois de ser jogado fora, queimaria e subiria à cabeça.
Há sempre uma caixa escondida com obscuridade.
Abra os olhos e me diga oque vê;
Doces toques prontos para dois.
Desespero na estrada certa - ou não.