quarta-feira, 6 de março de 2013

Fogo Fátuo

Nos limiares daquela noite, com todos os seus barulhos a  flor da pele, algo estava acontecendo.
Havia um cheiro de morte incomodando o inquilino, que procurava audaciosamente por um animal morto, ou alguma razão para tamanho fedor.
Andou pelos corredores, pela cozinha, pela sala, por todos os cantos permitidos daquela casa. Nada encontrou. 
O cheiro, se é que se pode chamar assim, ia e vinha. Era como uma peça sendo pregada pelos veteranos em um calouro qualquer.
Tentou dormir novamente, mas além da insatisfação daquele odor, estava muito barulhento lá fora.
Ficou imaginando como as pessoas conseguiam dormir com aquele alvoroço. Eram barulhos diversos, desde chiados de insetos, até declarações de amor. Era uma rua estranha aquela. Sempre fora.
Quando estava quase caindo no sono, o fedor parecia ter aumentado drasticamente. Nem mesmo nos seus sonhos se livrava do cheiro. teve vontade de gritar, mas isso acordaria todo mundo. Não morava sozinho. Tinha uma conjugue, que estava num sono tão pesado, que só poderia ser à base de algum analgésico. Talvez ela tivesse tido um dia ruim. Talvez ela tivesse tido um dia bom. Ele fez todo silencio que aguentou e levantou novamente.
Caminhou dessa vez, até o banheiro. O espelho estava embaçado, e ele limpou como uma toalha que ali estava. Seu rosto parecia normal. Olhos fundos, boca seca, cara amassada e os propícios olhos vermelhos, que vez ou outra, ficavam ainda mais vermelhos, dando a ele uma aparência demoníaca. Ele odiava o que via. 
O cheiro não se afastava e então começou a se lembrar das histórias contatadas a ele quando era uma criança. Sobre seres enviados das profundezas do inferno, com seus agouros e cheiros. Seria possível  que um demônio estivesse sondando ele? Era de se esperar, que alguém mais sentisse a carniça que pairava ali, mas ninguém parecia sentir nada. A insanidade, misturada com pensamentos lamuriosos, começaram a reinar ali. Ele via sombras dançarem em todos os lugares. Sentia que estava sendo observado por alguma coisa. A sensação era horrível. 
Como todo bom pagão, ele rezou no seu desespero. Pediu à qualquer um pra livrar a sua cara horrenda daquele mal, que parecia se aplacar e se aproximar rapidamente.
Foi quando ele viu algo que sabia que jamais poderia compartilhar com ninguém. Nenhuma pessoa acreditaria. Diriam que foi um delírio noturno, cansaço, qualquer coisa. Mas a verdade é quele sabia o que era. 
Um estranho vulto, parou na sua frente. os sons, todos aqueles barulhos infernais, cessaram. A escuridão envolveu os dois, sem parecer querer soltar.
O vulto estendeu um papel para o jovem infortunado. Ele leu, mas não era capaz de reproduzir o que lia. Não dava pra assimilar com nada mundano. Levantou a mão, e pelo que pareceu uma eternidade, pronunciou coisas sem sentido. Rasgou um pedaço do dedo, deixou escorrer o sangue naquele pergaminho velho. 
O vulto estremeceu até sumir. O cheiro se foi.
O rapaz, que parecia menos indagado que antes, voltou pra cama e dormiu instantaneamente.

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