sábado, 16 de fevereiro de 2013

Jacob, o Retardatário

Olhou ao redor do próprio corpo e tentou definir o que via.
As janelas de seu apartamento no décimo terceiro andar estavam escancaradas e o vento tórrido da noite entrava tirando tudo do lugar. Não sentiu vontade de fechá-la. Não sentiu vontade de nada.
Partiu algumas pilulas e fez o seu pó fluir na mente vaga. As visões que agora tinha, eram lindas e gritantes.
Brincava com o vento e o próprio cabelo. Seu sorriso torto, dirigia-se ao espelho partido em três.
Se achava lindo, sem nenhuma luz ofuscante. Recordava de toda a musica que tinha feito, de tanto tempo que havia passado.
Nenhum rosto amigável estava ali agora. O telefone tocava, mas no fundo, quem quer que fosse, sabia que ninguém atenderia. Era tarde demais. Acendeu um cigarro e contemplou novamente o vento nas janelas.
Sabia que aquilo era bom demais pra ser verdade. Fácil demais.
De relance, viu os carros passarem a 200 km por hora nas estradas, infestadas de lixo e gente largada.
Sentiu inveja de cada uma daquelas pessoas, queria estar ali, mendigando um pedaço de qualquer alimento.
Sentiria felicidade ao sentir fome novamente. Ou simplesmente sede. Sentia-se um robô paranoico...
Abriu a carteira e uma a uma, jogou suas notas enfadonhas. Jogou os documentos, as notas fiscais, tudo fora. Abriu uma outra garrafa de vodka e bebeu um gargalo incontido. Lançou o resto pela janela, e foi reprendido por um transeunte qualquer. "Foda-se, você tem muito mais que eu".
Enquanto fazia a fumaça sair em dança de sua boca, finalmente lembrou de algo inusitado.
Resolveu adiar seu destino espatifado um pouco mais. Renegou sua falta de coragem enquanto teclava pacientemente as teclas em seu IOS. Jogou o aparelho de lado, bufou e caiu na cama King Size. Iria ser um sono pesado, de um ou dois dias. Ninguém sentiria sua falta.
Sonhou em nunca mais abrir os olhos, sentia lágrimas escorrerem dos olhos.
Infelizmente, quando acordou, sentindo-se entorpecido, nada havia mudado.
Ligou o som. "Getting away with murder" nos fones rasgantes em sua orelha.
Mais um dia, pensou... Mais um dia...


1 Confessaram:

Tamiris Mend. disse...

Mais um, sempre mais um, sempre o último, nunca o primeiro.

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