sexta-feira, 15 de abril de 2011

Crônicas de um Apaixonado, Pt 3

Puxei-te pela mão o mais forte que conseguia. Os passos atrás de nós eram rápidos e tinha um tom de “marcha” como se fossem soldados ou coisas assim. Eram eles, eu tinha certeza. O homem de branco disse que seriamos caçados, em todos os lugares que estivéssemos.  Jamais nos deixariam em paz, tínhamos ouvido isso a menos de duas horas e agora estávamos aqui, desconsolados.
Eu não deveria ter voltado, devia ter cuidado de você e não ter sido tão egoísta a ponto de querer te tocar outra vez. Mas não me importo, você está do meu lado e isso me deixa forte.                               
Era isso que queríamos certo? Ficar juntos, não importava como. A cada segundo que passava seu coração batia mais forte e eu podia sentir o medo em seus olhos. Meu corpo queimava com um fogo mais denso que já tinha visto. Sentia toda a força que ganhei quando morri, mas me sentia vivo.
Chegamos a um lugar escuro, sem saída aparentemente. Você está fria, não posso sentir seu toque direito. Talvez seja porque eu estou quente demais.
O desespero tomou conta de ti, não consigo entender porque, estávamos juntos, podíamos fazer tudo. Nossa força era capaz de derrotar exércitos, eu tinha certeza disso. Mas você não. Eu podia ver que estava com medo. Seu corpo estava congelando e você não tinha nenhuma confiança em mim. Depois de tudo. Isso me enraiveceu, eu havia morrido e voltado só pra ficar com você. Provavelmente, as forças do inferno estavam atrás de mim, e você com essa cara.
Parei e te joguei pro canto com brutalidade. O barulho que fez, parecia de pedras se quebrando, mas eu não liguei. Virei pra encarar seja quem for que estivesse ali, tinha que mostrar a minha força, isso faria você ficar mais confiante. Eu queria ver seu amor de novo, aquele sorriso encantador que sempre me deixava tão feliz, hipnotizado.
Eles chegaram calmos, porém com um olhar de severidade. O que estava na frente, provavelmente o líder, ordenou que os outros ficassem quietos. Encarei-o como quem encara a própria morte, e de fato, não há muita diferença eu acho. Olhei de relance pra você. Seus olhos estavam vagos, em outro mundo. Senti uma ira terrível e me joguei pra cima do primeiro homem, o que estava na liderança. O bater de nossos corpos foi uma explosão. Senti os ossos dele se quebrarem enquanto eu batia com toda força.
Os outros ficaram imóveis, inexpressivos. Aquilo não fazia sentido. Eu estava sozinho e eles não eram mais. Porque não simplesmente entraram na briga?
O líder caiu e eu senti tamanho prazer em jogá-lo sem vida, inerte pro chão. Os outros se encaravam, mas não senti medo em seus olhares, pelo contrário, eles estavam até confiantes de mais. O próximo veio e eu o derrotei. E o próximo, e o próximo, e o próximo, e o próximo. Não restou nenhum ali, só eu e você. Você continuava inexpressiva, pálida no em seu canto.
Foi aí que percebi que tinha alguém mais ali. Um homem grande, vestido de preto. Ele era muito atraente, mesmo pra mim. Ele era exatamente como o homem que havia dito que seriamos caçados, exceto pelo cheiro. Esse cheirava a podridão, a morte. Seus olhos eram vermelhos e profundos e ele caminhava com tanta elegância que nem percebi que ele estava a menos de um metro de mim. Mal reagi. Ele Olhou pros meus olhos e me pegou pelo pescoço. Levantou meu corpo com tanto facilidade que parecia estar mexendo com papel.
Apertou meus ossos com força e eu gritei agonizando. Olhou pra mim e começou a falar docemente e tão despreocupado, que nem parecia que ia me matar em segundos. “Você foi avisado, não foi? Achou que ia quebrar as regras e tudo ficaria bem? Odeio vocês, recém chegados que acham que podem fazer o que quiserem.” encerrou e me jogou para o chão.
Ele caminhava em sua direção e estava com um olhar tão malicioso, que eu podia cheirar a maldade ao seu redor. Rangi os dentes de raiva e me joguei pra cima dele, inútil. Não consegui tocá-lo. Ele era rápido demais, apenas se movimentou um pouco e me despachou novamente para o chão. Novamente, começou a me falar e eu fiquei impressionado com sua voz. “Ela é minha por direito, nada que você faça vai fazê-la voltar pra você. Será que não percebe em seus olhos que ela não está mais aqui? Sua alma já está agonizando no inferno há tempos, e seu corpo me pertence. Darei a você duas opções: 1º Junte-se a mim, e talvez eu deixe você brincar com ela de vez em quando. 2º Venha mais uma vez me atacar e vou quebrar seu espírito e não vai ter lugar pra ir, afinal, não pode voltar pro céu, tendo caído. Sem espírito, somente o inferno lhe resta. Então, o que vai ser?” Terminou a frase com aquele sorrisinho de pura maldade e me encarando. Não podia acreditar no que tinha ouvido. Você tinha me deixado, depois de tudo que fiz pra ficar ao teu lado? Já não fazia mais sentido continuar.
Eu decidi morrer de vez, e agonizar pra sempre no inferno, afinal, nada tinha sentido se fosse sem você. Eu não poderia aceitar seu corpo, porque não era ele que eu amava, era seu coração, sua alma. E ela estava despedaçada, assim como eu.
Eu fechei os olhos e pedi por uma luz. Rezei, mesmo sabendo que eu não era exatamente uma pessoa de fé. Lembrei do momento em que descobri que tinha morrido que jamais tocaria você de novo. Pensei na pessoa que tinha me matado, com um tiro nas costas. Eu o perdoei, rezei pela sua alma. Naquele momento eu o vi, era um cara desesperado com a vida, pai de cinco filhos, desempregado e com a mulher doente. Liberei minha alma, pra que ela ficasse pura e joguei nele todos os sentimentos bons que eu tinha. Senti que ele estava feliz em casa, que tinha arrumado um emprego. Seus filhos brincavam e sua mulher estava curada. Alegrei-me ao ver ele ajoelhado, rezando por mim e pedindo perdão a deus.
Uma força me envolveu naquele momento, uma energia pura e verdadeira. Senti os olhos do homem em mim. Vi os teus olhos e caminhei em sua direção. Ele pulou pra cima de mim e tentou me atacar. Eu senti pena dele. Um mero servo de diabo, que não tinha controle da própria alma. Minhas asas cresceram e brilhavam num tom de azul celestial. Puder ver que ele ficou com inveja delas. Eu novamente senti pena e compaixão, aquilo parecia me dar mais forças. Apenas o chacoalhar de minhas azas fizeram o homem de preto voar pra longe, blasfemando e gritando coisas que eu não entendia.
Eu apontei e ele se calou. Peguei-o nos braços e ele chorou. Fechei os olhos e rezei por ele, enquanto sentia que ele se tornava cinzas. Pedi que deus desse uma nova chance para sua alma.
Olhei pra você e vi que continuava a mesma, sem nenhuma emoção, somente o medo em sues olhos. Te chamei, gritei seu nome, nada adiantou. Implorei pra que você voltasse a ser o que era antes. Senti lágrimas descerem de meus olhos, você estava inerte com aqueles olhos vagos e profundos... Ouvi uma voz em minha cabeça. Olhei para os lados e não vi ninguém. Perguntei quem era, mas não obtive respostas. Chamei por deus, queria que ele me amparasse. Uma benção caiu sobre mim e quando me virei só vi uma luz, mal conseguia me manter de pé, então me ajoelhei. A clareza e o cheiro de paz se aproximaram de mim e me tocou. Ouvi uma voz em minha cabeça e apenas me deixei levar pela paz que me envolveu.
“Você perdoou o homem que te afastou de seu amor, liberou uma alma vingativa e negra e mesmo assim não percebes o que aconteceu não é? Filho não poderá ficar com tua amada agora. Você se foi do mundo dos homens e eu te escolhi para que a proteja, já que tem tanto amor por ela.” Sua voz era clara e verdadeira. Eu apenas pensei no que eu queria falar. Pensei em como era importante pra mim a felicidade dela, que seria capaz de qualquer coisa para ficar do lado dela. “Serei sincero com você, filho. Eu sou onipotente, criei tudo o que você pode imaginar, e ainda assim, não posso juntar vocês dois. Responda-me uma coisa filho, e quero que seja sincero. Seria capaz de qualquer coisa pra viver novamente com ela?” Sua voz em minha cabeça me tranqüilizou e aos poucos fui assimilando o que tinha ouvido. Tudo eu disse. Qualquer coisa pra fazê-la feliz e poder viver em paz ao teu lado. Eu senti que ele sorriu pra mim e me tocou com um abraço. Sussurrou em meu ouvido e me encheu de alegria escutar tuas palavras. “Tem uma coisa que pode ser feita, mas terás que agir sozinho. A alma dela está presa nas profundezas do inferno. Se você conseguir tocá-la, ela voltará a habitar o seu corpo, e assim, ela poderá sorrir e sentir seu amor de novo”.
Minhas asas se ouriçaram e eu ergui o peito com coragem. Olhei nos olhos de minha amada e disse em docemente pra ela: “Custe o que custar, vou trazê-la de volta. Custe o que custar. Se deus é por mim, ninguém poderá ser contra”. Ele sorriu enquanto erguia a mão mostrando o caminho que eu teria que percorrer. Enquanto isso eu apenas sorria, por saber que tinha uma chance de sermos felizes de novo. Para todo o sempre.

4 Confessaram:

Daniela Filipini disse...

Não acredito que perdi as primeiras partes ):

@r_zanette disse...

Intenso e lindíssimo.

TaTa disse...

Suas palavras me levam para dentro de um eu que teima em esconder...

Luara Q. disse...

Uau, você escreve muito bem!

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